07 janeiro 2010

Não suportando a dor, enfiou uma faca no peito. O torpor impediu-lhe de sentir o tormento do ato e, depois de feito, ele apenas sentia o alívio que escorria em meio a seu sangue quente. O corte era profundo, rente ao coração que pulsava cada vez mais lentamente. Os olhos demoravam ao piscar, as mãos afrouxavam e o vazio ocupava a mente. Um suspiro, derradeiro. Um final, apenas. Ele não mais estava entre a gente.


Página 215, A morte fala mais alto.

06 janeiro 2010

As formigas me vinham sempre. Por hora eu cutucava e fazia o assobio de chamado, por outra eu nada fazia, jazia o meu corpo na sombra da luz, ignorando a vida que tinha na minha carne, o gosto da pele que elas ansiava, as de carne. Esperava ansioso por aquelas que não queriam me tirar um pedaço carnal com seus dentinhos miúdos, partindo comigo por entre os dentes e deixando um pedaço da pele vermelha, como se tivesse tocado fogo. A coçeira era o castigo, a dependência de mim mesmo, das unhas em toco, das falanges pra me coçar e dar prazer, onde da ferida nascia o sumo. "É o proposito da pequena criatura?" tic taqueava martelantemente o meu pensamento "vir aqui me marcar e me deixar comigo, ao abandono da noite, do dia, até do meio da tarde". Mas elas sempre voltavam, sempre. As formigas voltam para o que lhe interessam, pode não ser um pote de açúcar, como diz a lenda, ou talvez seja ele enterrado no corpo da vítima em lugar distante jamais pensado por ela. Jamais pensavam em alcançar cavidades latentes latejantes gritantes sanguíneas. Jamais aventuraram-se além corpo além ventre, sentido coração. Talvez pela cor vermelha viva do sangue. Pelo medo do coração ter um gosto mais saboroso que aquele da carne que apodrece na batida do tempo na vida. Na frente dos olhos de um ser é difícil encontrar um formigueiro com nome próprio e inquilino que pague aluguel em dia, esse não é em dinheiro. Do amargo ao diabético, a preferência das garras se dá por um deslize no lado esquerdo da língua, no lado esquerdo do peito. Repleto de marcas é aquele que tem um coração mais doce que o normal, porque ele dança com a vida conforme os compassos, e se torna uma vítima banal das tentações fatais. Esse tal aprende a desamar e criar um riso voluptoso e um abraço em 360 graus a cada pedaço de carne levado pelas formigas de pele preta, as mais audaciosas da face da terra.

Artigo 1,76
Estudo somático
Experiência 1 - Austrália, Liverpool 1964

04 janeiro 2010

O amor escorre, se perde, transforma-se em traços de rugas. Quando já não há espaço pra acomodar tantas delas - traços de amores passados. O amor se veste de lágrimas e permanece escorrendo, se perdendo, livre e sendo..

Porque quando eu fecho os olhos são eles – meus amores, quem eu vejo. São todos eles que passam feito filme em minha mente, todos apertados no espaço pequeno que é meu reservatório de amor. Meus olhos, projetores cinematográficos, visualizam os donos das marcas que me enfeitam. E o que vejo cai na boca, e tem o sabor íntimo levemente salgado da lágrima dos amores que se perderam no espaço e não mais voltarão a acomodar minha vida. Do alto para o mais baixo de mim vou me atirar. Abrirei meu corpo, minhas pernas no asfalto e correrei.. Só paro de correr quando estiver longe, tão longe que o eco demore a chegar. E lá terei a certeza de que não estarei em paz enquanto eu souber e tiver amor pra receber ou dar. Esse é o meu jeito de me perdoar e voltar a amar.



O tal do amor, zero

03 janeiro 2010

O pirulito em minha boca ficara salgado. Não percebi que engolia minhas lágrimas para que tu não percebeste a lança fina e afiada que enfiavas no meu peito. As palavras ecoavam em minha mente, girando em minha cabeça e eu queria tapar os ouvidos para que a dor que elas provocavam parasse de latejar em mim. Tu me olhavas aparentemente despreocupado, com aquela sorriso maroto no canto dos lábios, tão típico teu, despejando aquele teu falar relaxado, cheio de gírias, enquanto o cigarro aceso ardia na mão direita - a única pista do teu desconforto em me deixar. Eu sempre soube que te causava esse nervosismo que te fazia fumar ao lidar comigo. Também sabia que o teu coração há muito já pulsava em minhas mãos. Mais até que o meu, nas tuas. Só não pensei que a liberdade que arfava no bater das asas do teu coração aventureiro fosse mais forte que o segurar das minhas mãos. Menti, então, um "tudo bem" engasgado e sai andando, sem olhar pra trás. Às minhas mãos, agora vazias, só restavam segurar os cacos do meu coração que se despedaçava.


pág. 142, O violeiro.

28 dezembro 2009

- Promete que você não vai me deixar?! - foi a única coisa que consegui falar naquele momento, e aliás foi o que praticamente tomou vida sozinho em meus lábios. Tentei não chorar e olhei em seu rosto, eu sabia que o que eu pedia à ela era quase que imoral, mas por um momento eu vi em seu rosto uma dúvida, enfim, algo em que eu pudesse manter minhas esperanças.

- Descansa, Léo. Vai ficar tudo bem! - meu mundo ruía ali, vendo que ela já conseguia desviar de mim sem nem ao menos olhar em meus olhos, ela se virou e eu pude sentir aquele perfume que tanto gostava, aquele perfume que eu não queria deixar de sentir, aquela pele branca e aqueles olhos vívidos que eu não podia deixar de ver.

- Promete! Por favor! - eu puxei seu rosto para mim, buscando aquele olhar que me passava calma e ternura, mas por um momento não foi o que eu vi, não hoje, não agora. Muito pelo contrário, o que eu vi foi algo entre a raiva e o nojo.

- Você está me machucando, Leonardo! - ela falou de forma ríspida, mas tentando me confortar, não conseguia fazer mais nada, desci minhas mão do seu rosto e mais uma vez, eu não tinha o que dizer além de desculpa. Voltei minha cabeça ao seu colo, com a sensação de perda, de dor e de que tudo aquilo era minha culpa. Eu já não conseguia mais conter o choro, e foi quando ela passou as mãos em meus cabelos que eu vi que não poderia viver sem ela, sem aquela que durante todo esse tempo me mostrou o que é ter uma pessoa para te apoiar nos momentos bons e ruins, alguém que queira o seu bem, que queira ver você crescer e que mesmo com todos os meus erros estaria sempre ali. Eu não podia deixar ela ir embora, afinal ela já era o meu bem mais precioso, era o sentimento puro do que é querer uma pessoa. Mas eu não tinha forças para lhe falar tudo que sentia e mais uma vez eu só podia pedir perdão.

- Me perdoa, por favor! Não posso viver sem você! - Essa foi a última coisa que eu lembro de falar para ela, antes que eu entrasse em um estado diferente, algo surreal, por um segundo eu juro que podia sentir ela ao meu lado, sentir seu calor, mas sem conseguir me mexer ou falar como se eu não estivesse ali, como se não estivesse vivendo isso, e sim tendo apenas uma lembrança, uma lembrança triste. Tristeza... Acho que essa é a melhor palavra para definir o que eu sentia naquele momento, uma profunda tristeza ao perceber que a dona do meu sentimento mais puro já não podia aguentar ficar ao meu lado, pior do que isso, ela já não queria mais ficar ao meu lado. Naquele momento eu já não sabia se estava sonhando ou se era algo real - e eu é claro desejava que fosse um sonho - e se me perguntassem eu diria que vi uma última imagem dela, daquela garota linda de pele tão branca e cabelos longos indo embora, partindo, partindo o seu coração e o meu junto com o dela, arracando uma dor de dentro de mim e de dentro dela. Adeus, Léo. Foi o que ela disse antes de fechar a porta. Foi o que eu lembro ter ouvir antes dela ir embora.


pág. 88, O que houve com o amor? - O outro lado.

(Texto escrito pelo meu melhor amigo.)