11 janeiro 2010

João sabia que o bico e a cara amarrada eram artifícios meus que não duravam mais que dez segundos. Ele se divertia muito com isso. Por isso fazia aquela cara despreocupada que me dava nos nervos e fingia não notar minha irritação gritando em meus olhos lacrimosos. Por dentro eu sentia estar prestes a explodir! Ele sabia que minha resistência se desfazia fio a fio e logo eu estaria totalmente desarmada, esperando que ele se aproximasse e me beijasse. Me desarmei, então. Mais rápido do que ele esperara. De que adiantaria resistir por mais um segundo ou dois se em nada alteraria o resultado? Desfiz meu bico e comecei a sorrir, corando as bochechas. Como eu era boba perto de João! Ele riu, fez pose de difícil. Depois caminhou lentamente em minha direção, pegando minha mão e beijando-me os dedos. Meu sangue ardeu quente nas bochechas e o abracei, encostando meu coração no dele. O som dos dois batendo juntos era a coisa mais linda que eu já ouvira.


Pág. 51, Quando é amor.

07 janeiro 2010

Não suportando a dor, enfiou uma faca no peito. O torpor impediu-lhe de sentir o tormento do ato e, depois de feito, ele apenas sentia o alívio que escorria em meio a seu sangue quente. O corte era profundo, rente ao coração que pulsava cada vez mais lentamente. Os olhos demoravam ao piscar, as mãos afrouxavam e o vazio ocupava a mente. Um suspiro, derradeiro. Um final, apenas. Ele não mais estava entre a gente.


Página 215, A morte fala mais alto.

06 janeiro 2010

As formigas me vinham sempre. Por hora eu cutucava e fazia o assobio de chamado, por outra eu nada fazia, jazia o meu corpo na sombra da luz, ignorando a vida que tinha na minha carne, o gosto da pele que elas ansiava, as de carne. Esperava ansioso por aquelas que não queriam me tirar um pedaço carnal com seus dentinhos miúdos, partindo comigo por entre os dentes e deixando um pedaço da pele vermelha, como se tivesse tocado fogo. A coçeira era o castigo, a dependência de mim mesmo, das unhas em toco, das falanges pra me coçar e dar prazer, onde da ferida nascia o sumo. "É o proposito da pequena criatura?" tic taqueava martelantemente o meu pensamento "vir aqui me marcar e me deixar comigo, ao abandono da noite, do dia, até do meio da tarde". Mas elas sempre voltavam, sempre. As formigas voltam para o que lhe interessam, pode não ser um pote de açúcar, como diz a lenda, ou talvez seja ele enterrado no corpo da vítima em lugar distante jamais pensado por ela. Jamais pensavam em alcançar cavidades latentes latejantes gritantes sanguíneas. Jamais aventuraram-se além corpo além ventre, sentido coração. Talvez pela cor vermelha viva do sangue. Pelo medo do coração ter um gosto mais saboroso que aquele da carne que apodrece na batida do tempo na vida. Na frente dos olhos de um ser é difícil encontrar um formigueiro com nome próprio e inquilino que pague aluguel em dia, esse não é em dinheiro. Do amargo ao diabético, a preferência das garras se dá por um deslize no lado esquerdo da língua, no lado esquerdo do peito. Repleto de marcas é aquele que tem um coração mais doce que o normal, porque ele dança com a vida conforme os compassos, e se torna uma vítima banal das tentações fatais. Esse tal aprende a desamar e criar um riso voluptoso e um abraço em 360 graus a cada pedaço de carne levado pelas formigas de pele preta, as mais audaciosas da face da terra.

Artigo 1,76
Estudo somático
Experiência 1 - Austrália, Liverpool 1964

04 janeiro 2010

O amor escorre, se perde, transforma-se em traços de rugas. Quando já não há espaço pra acomodar tantas delas - traços de amores passados. O amor se veste de lágrimas e permanece escorrendo, se perdendo, livre e sendo..

Porque quando eu fecho os olhos são eles – meus amores, quem eu vejo. São todos eles que passam feito filme em minha mente, todos apertados no espaço pequeno que é meu reservatório de amor. Meus olhos, projetores cinematográficos, visualizam os donos das marcas que me enfeitam. E o que vejo cai na boca, e tem o sabor íntimo levemente salgado da lágrima dos amores que se perderam no espaço e não mais voltarão a acomodar minha vida. Do alto para o mais baixo de mim vou me atirar. Abrirei meu corpo, minhas pernas no asfalto e correrei.. Só paro de correr quando estiver longe, tão longe que o eco demore a chegar. E lá terei a certeza de que não estarei em paz enquanto eu souber e tiver amor pra receber ou dar. Esse é o meu jeito de me perdoar e voltar a amar.



O tal do amor, zero

03 janeiro 2010

O pirulito em minha boca ficara salgado. Não percebi que engolia minhas lágrimas para que tu não percebeste a lança fina e afiada que enfiavas no meu peito. As palavras ecoavam em minha mente, girando em minha cabeça e eu queria tapar os ouvidos para que a dor que elas provocavam parasse de latejar em mim. Tu me olhavas aparentemente despreocupado, com aquela sorriso maroto no canto dos lábios, tão típico teu, despejando aquele teu falar relaxado, cheio de gírias, enquanto o cigarro aceso ardia na mão direita - a única pista do teu desconforto em me deixar. Eu sempre soube que te causava esse nervosismo que te fazia fumar ao lidar comigo. Também sabia que o teu coração há muito já pulsava em minhas mãos. Mais até que o meu, nas tuas. Só não pensei que a liberdade que arfava no bater das asas do teu coração aventureiro fosse mais forte que o segurar das minhas mãos. Menti, então, um "tudo bem" engasgado e sai andando, sem olhar pra trás. Às minhas mãos, agora vazias, só restavam segurar os cacos do meu coração que se despedaçava.


pág. 142, O violeiro.